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Coisas que...

[Li] "Harry Potter e a criança amaldiçoada" de J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne

por Carla B., em 03.03.17

Seria muito difícil para mim não ler este livro. Os livros do Harry Potter foram uma parte importante do meu crescimento, de tal modo que deixaram um vazio que, parece-me, ainda não foi suplantado. E provavelmente nunca será, pois duvido que novos livros tenham o mesmo efeito. Terão outros, até porque estes também não suplantaram o buraco que se me abriu no peito com A Lua de Joana. Há livros e há momentos perfeitos para ler esses livros. Outros livros terão os seus momentos, tenho a certeza disso.

 

Tirado daqui.

 

Sabia que esta história não poderia ser comparada aos outros 7, primeiro porque o formato é completamente diferente, uma peça de teatro, e segundo, as personagens não seriam, certamente, as mesmas. E não são. São pais, são adultos com outro tipo de responsabilidades. Tenho de confessar que gostei desta última parte, mas infelizmente senti que a peça de teatro não terá sido o melhor meio para explorar a história. Acredito que assistir à sua performance poderá ter um outro impacto completamente diferente, mas em termos de exploração da relação das personagens (e que relações haveria a explorar!) soube-me francamente a pouco.

 

Quanto à história em si… Bem, é melhor avisar que vou falar de algumas reviravoltas do enredo.

 

 

[Li] "A doença, o sofrimento e a morte entram num bar" de Ricardo Araújo Pereira

por Carla B., em 01.03.17

O meu irmão não lê. Raramente tem paciência e prefere divertir-se de outro modo. Nada contra, ele também gosta de videojogos e eu sou uma inapta e por isso não aprecio por aí além, prefiro vê-lo a jogar e acompanho a história como se estivesse a ver um filme. Mas há um senão no que toca a ele não ler… Não posso falar dos livros que li com ele quando preciso MESMO de falar com alguém sobre o que acabei de ler!

Visto aqui

 

No entanto ofereci este pequeno livro ao meu irmão pelo Natal e pasme-se, chegou o ano novo e ele leu-o! Na verdade foi uma aposta, podemos dizer, calculada. Sei que o meu irmão gosta do Ricardo Araújo Pereira, o rapaz até comprou um livro que o Ricardo Araújo Pereira mencionou num Governo Sombra… e começou a lê-lo! É certo que ainda não acabou, ele começou a lê-lo em setembro, salvo erro, e até agora ainda não deve ter chegado à página 100, mas estamos a falar de O Bom Soldado Švejk, que deve ter umas 800 páginas, e de alguém que não está habituado a ler. Para mim, toda esta empresa já é uma vitória e quem sabe, o rapaz até pode vir a tornar-se um leitor! Eu pelo menos agradeço que por uma vez não seja eu a trazer livros para casa, que o orçamento já viu melhores dias.

 

Mas dizia que foi uma aposta calculada. Claro que pensei que a empresa de O Bom Soldado Švejk seria algo para durar algum tempo, mas vi uma oportunidade e quando vi o livro do Ricardo Araújo Pereira nem pensei duas vezes. Um livro curto, tipo ensaio (talvez convenha também dizer que o meu irmão parece ser mais de não-ficção nas suas leituras, ainda que não tenha feito tantas como isso, porque lá está, o moço pouco ou nada lê), por uma personalidade que gosta de ouvir e admira. Tinha tudo para correr certo e felizmente correu! Até ao momento nada me soube tão bem (ok, consigo pensar em outras coisas que durante o mês de janeiro também me fizeram sentir muito bem) como o meu irmão vir ter comigo e dizer "Já li, é um bom livro. Já conhecia muitas das situações e piadas que explora mas é uma visão interessante sobre o riso e o humor", ou algo assim parecido.

 

E basicamente é isto que tenho a dizer sobre o livro. Também já contei a história de ter sido apresentada à Lídia Jorge enquanto o lia e pouco mais há a dizer. Há livros em que é o contexto como ele surge na nossa vida ou a altera, o que acontece à nossa volta ou a nós mesmos enquanto o lemos que importa. Este para mim será um desses livros.

[Li] "As Crónicas de Gelo e Fogo" de George R.R. Martin

por Carla B., em 12.02.17

Depois de ter delirado com a 6.ª temporada da série "A Game of Thrones", senti necessidade de continuar mergulhada naquele mundo enquanto aguardava (e aguardo) ansiosamente a próxima. Ora nada melhor, pensei eu, que me atirar aos livros. E foi o que fiz.

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Visto aqui.

 

Voltei a pegar nos primeiros dois volumes (quatro na versão portuguesa), que já havia lido e avancei por ali fora. A princípio queria ler os diversos capítulos, ver os episódios correspondentes e ouvir o podcast "A Cast of Kings" sobre os mesmos episódios, mas só resultou com o primeiro volume (os dois primeiros em português) pois, dali para frente, a ânsia de saber o que ali vinha, mesmo sabendo-o de antemão, não me deu tempo para ir acompanhando com a série e podcasts como desejava. De certa forma, ainda bem que assim foi, pois dá para continuar neste mundo por mais algum tempo, agora que acabei de ler tudo o que está publicado, sem contar com a enciclopédia, os contos de Dunk and Egg e os capítulos do próximo volume que o Martin já disponibilizou. Mas a esses também chegarei. :D

 

Uma das coisas que constatei foi o facto de ser engraçado ler quando já se sabe o destino de algumas personagens e como diversas situações se vão resolver. No entanto, sobretudo a partir do terceiro volume (quinto e sexto em português), houve coisas que me surpreenderam pois a história dos livros e da série difere um pouco. Na série televisiva o arco narrativo é bastante mais pequeno, com algumas linhas que não são tocadas nem abordadas e com personagens que nunca aparecem ou são sequer mencionadas.

 

O primeiro volume continua a ser o mais marcante para mim. Li-o antes de haver rumores da série, e foi engraçado acompanhar o casting, sobretudo no que ao Sean Bean disse respeito e onde a minha reação perante a escolha foi "ÓBVIO! SÓ PODIA SER ELE!" Mas dizia, este continua a ser o melhor livro para mim, pois foi o livro que me fez fã do autor e que contém, mais uma vez para mim, as duas cenas que mostram claramente o que são estas Crónicas de Gelo e Fogo. São o que carinhosamente lhes chamo "os momentos WTF" e que, diga-se, preparou-me para o que estava por vir: a cena do Bran e "as coisas que faço por amor" e, claro, a cena do Ned Stark.

 

O segundo livro, devo confessar, que pouco me lembrava do seu enredo, pelo que foi útil relê-lo e daí continuei pela saga fora. O terceiro é um corropio de emoções. Toda a tensão que se vai acumulando nos primeiros livros conhece aqui um pico tal, que explode tudo e em todas as direções. Se não tivesse visto a série, era capaz de me surpreender muito mais (ainda que apesar de saber o que aí vinha, tenha ficado ainda assim atordoada) e eventualmente destronar os "momentos WTF" do primeiro volume.

 

Os quarto e quinto volume (volumes 7 a 10 em português), são como que um respirar fundo antes de voltar a suster a respiração para o que está por vir. Se os primeiros volumes mostram as batalhas, estes mostram o lamber das feridas e os jogos de bastidores em preparação para a última parte do jogo. É quase que o intervalo de um jogo de futebol, onde se afinam táticas, se procuram os jogadores que, entrando frescos no jogo, o podem mudar. E eu mal posso esperar pelos próximos 45 minutos desse jogo. :P

 

No que toca à escrita do Martin, é fantástica. Penso que se nota o passado de argumentista televisivo, ainda que não seja tão "guião" como senti ao ler A Estirpe do Guillermo del Toro. A sua escrita é muito visual, ajuda bastante cada capítulo ser do ponto de vista de uma personagem, que por diversas vezes tem uma ideia completamente diferente de outras, ainda que tenham presenciado um mesmo acontecimento. Acho que é sobretudo aí que está o génio do George R.R. Martin porque capta, a meu ver, não só a essência dos personagens (até quando usam outros nomes, um artifício que achei delicioso sobretudo com uma personagem que de certa forma precisou de se redescobrir) como da própria História. E digo História com "h" maiúsculo, por forma a significar a ciência social que estuda o passado. Porque estas Crónicas de Gelo e Fogo ilustram, de forma magnífica, como a História se repete e como pode haver tantas "verdades". Não sei se me faço entender, mas continuando... Também achei interessante, e mais uma vez tenho de confessar de que não me lembrava como eram os finais dos livros, como cada volume (em inglês) termina numa espécie de "não percam o próximo episódio porque nós também não!" É engraçado como coloca um ponto final em certas questões mas lança, ao mesmo tempo, a base do que está para vir. Muito como as séries televisivas, e a que "A Game of Thrones" não foge e faz muito bem.

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Visto aqui.

 

E pronto, acho que por agora é isto. Penso que escuso de dizer como estou ansiosa à espera do final, tanto em livro como na série televisiva. E por falar em série, cá vou eu revê-la... 

[Li] "Crónicas do Senhor da Guerra" de Bernard Cornwell

por Carla B., em 27.04.16

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Tirado daqui.

 

Conheci esta trilogia vai para mais de 10 anos, quando comecei a falar de livros com outras pessoas com gostos semelhantes e com quem passei a frequentar livrarias, sendo que me chamavam sempre a atenção. Vim, no entanto, a conhecer o autor com outra série que não esta (e bem mais longa!) e, devo dizer, nunca pensei conhecer uma personagem que destronasse o Richard Sharpe das minhas preferências. Mas está claro que ainda não tinha tido o prazer de conhecer Derfel Cadarn.

 

O estilo de narrativa é diferente do que tinha encontrado em outros livros do autor mas foi uma das coisas de que mais gostei. Basicamente, Derfel foi incumbido de escrever uma crónica sobre os tempos de Artur e está, por isso, a contar-nos a sua história, não a dos bardos que tanto despreza. Ele era um dos companheiros de Artur, esteve em muitos dos eventos que moldaram a Bretanha na transição do séc. V para o VI e vemos a história a desenrolar-se através dos seus olhos.

 

Sinceramente, este tipo de narrativa pode ser um deal breaker para mim, pois em situações de vida ou morte já sabemos qual será o desfecho, ou de outro modo seria outra pessoa a contar a história, mas aqui isso não me incomodou pois há muitas outras personagens com que me preocupei e queria saber que destino seria o delas, para além de que há tanto a acontecer que uma pessoa se deixa embrenhar completamente na história. Só chegava a lembrar-me de que a mesma estava a ser contada anos depois devido a alguns comentários do próprio Derfel ou quando, terminado uma parte, saímos da época de Artur para voltar para o "presente".

 

Este "presente", para dizer a verdade, foi mesmo das coisas que mais gostei e foi, por isso, que chegando ao fim constatei, com alguma tristeza, que não havia uma nova cena com Igraine, talvez a congratular-se com o facto de a história ter chegado ao fim e a apontar como Derfel contou alguma coisa mal, i.e. diferente da história cantada pelos bardos.

 

Derfel é uma personagem magnífica de seguir e é interessante acompanhar o seu crescimento. Adorei que ele fosse um cavaleiro capaz e um adulto responsável mas que, sempre que estava com Merlin, parecesse um rapazinho. Mas todas as personagens têm algo de fascinante, são carismáticas e tão bem desenvolvidas, são tão reais! Ceinwyn é um amor e tem uma personalidade tão forte, Lancelote é um estúpido idiota (mas onde está a surpresa?!), o Artur é quase que um Ned Stark que consegue manter a cabeça sobre os ombros por muito mais tempo (e sim, imaginei o Sean Bean porque não consigo desassociar o actor das personagens escritas por Bernard Cornwell) e a Guinevere, finalmente, conseguiu convencer-me! Sim, foram precisos os 3 livros mas é, muito provavelmente, a personagem mais bem construída de entre tantas!

 

Também foi um feito o autor conseguir fazer convergir todas as personagens que hoje associamos ao mito arturiano e outras que entretanto se perderam no tempo, assim como as várias histórias relacionadas com o mito. Podia tornar-se uma enorme salganhada mas o produto final é uma história coesa, pontuada por momentos de calma e outros que mudam completamente o rumo das coisas, sendo que, como Merlin diz por várias vezes, o destino é inexorável. As personagens servem a história e crescem com os acontecimentos por que passam e fiquei mesmo a pensar "pode ter sido esta a verdadeira história do Artur!"

 

E o retrato que o Bernard Cornwell faz da época! Ele retrata na perfeição um período conturbado. Um período pós domínio romano, que ainda se faz sentir na paisagem e leva, por diversas vezes, as personagens a perguntar-se como podem ter perdido tanto conhecimento. Um período em que a religião está por demais presente, é uma parte importantíssima do dia-a-dia das pessoas e vemos como uma nova religião ganha seguidores e coloca em causa todo um sistema prévio, onde a magia e a superstição têm um lugar fundamental em como as pessoas interagem com o mundo. Retrata um período em que as lutas são feitas corpo a corpo, com uma muralha de escudos e onde nem sempre se tomam prisioneiros. É um período brutal onde, saindo de um domínio romano, a Bretanha passa a ser assediada por Saxões. A sério, é um retrato da época por demais muito bem conseguido.

 

Enfim, esta trilogia foi, para mim, uma história perfeita. Foi tudo o que estava à espera e ainda mais. Bernard Cornwell, se já não fosse um dos meus autores preferidos, chegava directamente ao top 5 só com estes livros. Preciso de mais...

[Li] Apanhado de opiniões #1

por Carla B., em 20.10.15

Este ano não tenho tido grande possibilidade (ou mesmo vontade) de escrever sobre o que vou lendo, mas depois fico com um sentimento de culpa enorme porque sinto que não os "digeri" como devia.

 

Eu sei que são manias mas, para colocar o meu espírito mais á-vontade, cá ficam alguns apontamentos. Não serão grande coisa, até porque sobre alguns já se passa mais de meio ano desde que os li, mas é o melhor que se vai conseguindo.

 

Quiet: The Power of Introverts in a World That Can't Stop Talking de Susan Cain

 

Foi o livro com que fechei 2014 e entrei em 2015. Já tinha visto o vídeo e por isso foi sem surpresa que peguei no livro. Este foca ainda mais o que é ser introvertido e, sobretudo, como esse traço é tão importante, possibilitando a criatividade e o pensar fora da caixa.

 

A autora não demoniza a extroversão, pelo contrário mostra como também é importante que haja extrovertidos, mas critica o facto de ser uma característica que é tida em grande conta, quando até extrovertidos poderiam fazer bom uso de um momento em silêncio ou de não serem tão impulsivos. Se até o maior introvertido tem por vezes de sair da sua concha e fazer-se ouvir, o contrário pode ser benéfico para o extrovertido.

 

Como em tudo, é preciso moderação e alguma dessa moderação é obtida com os dois tipos a trabalharem em conjunto.

 

Amor e Poder (Primeiro Homem de Roma, #1) de Colleen McCullough

 

Eu sou uma licenciada em Arqueologia estranha. Estão a ver as grandes civilizações que levam a sonhar com a profissão de arqueólogo? A civilização egípcia? A civilização romana? Pois, eu é mais medieval e moderno. Não é que não admire aquelas culturas, que realmente em termos arquitectónicos e culturais foram fenomenais, mas para além de alguma curiosidade não me sinto fascinada.

 

Ora, por motivos profissionais tenho lidado, no último ano, de perto com o legado romano e achei que estava na altura de me dedicar ao estudo. Mas como sei como é que os livros de história podem ser maçudos (tenho conhecimento de causa)  lá me atirei à ficção histórica que, quando bem feita, é capaz de dar uma boa perspectiva do que seria o dia-a-dia das pessoas comuns e do que certa personagem histórica podia estar a pensar num determinado momento. Sim, é ficção mas é capaz de nos tornar mais simpatéticos para com algumas personagens.

 

Esta série sempre esteve na minha lista de livros a ler e, tendo falecido a escritora, achei que seria uma boa altura para ficar a conhecer a obra que nos deixou.

 

Se o livro peca é por parecer algo repetitivo e a história se desenvolver lentamente, no entanto permite-nos conhecer as personagens principais, Caio Mário e Sula, assim como o ambiente em que se movimentam, cheio de intrigas políticas, e o que os move.

 

Não é de todo uma leitura leve mas não deixou de ser agradável.

[Li] "The Martian" de Andy Weir

por Carla B., em 21.07.15

 Tirado daqui.

 

Eis como é bom sair da nossa zona de conforto. Não sou das maiores fãs de Ficção Científica (FC)... quer dizer, pelo menos na sua versão literária. Como disse no grupo do Só Ler Não Basta, no Goodreads, onde de momento está a decorrer um desafio para ler FC:

Talvez seja medo de não conseguir imaginar o que apresentam (como a minha imagem do rover no The Martian mostra, imaginação nem sempre é comigo, imaginei o Wall-E versão grande mas coisas assim, está quieto :P ) ou medo da ciência. Não é que seja algo que seja aprofundado em todos os livros, mas só a possibilidade de ler debates de física ou explicações me deixa pouco entusiasmada.

Além disso, sinto que com a FC preciso de uma componente visual mais presente, de um meio mais visual.

Filmes e séries televisivas ainda vá. Em livros é mais complicado pegar, mas o certo é que acabo por gostar. Já tinha gostado de Os Despojados, e agora gostei deste The Martian.

 

Jamais me tinha chamado a atenção, apesar de andar nas bocas do mundo e ter sido considerado um dos livros do ano de 2014 do Goodreads, e era mesmo daqueles em que planeava ver o filme e ficar-me só por aí, mas é nisto que dá as leituras conjuntas. Acabou por ser uma surpresa, não tanto por ter lugar em Marte, já vi filmes, mas pela maneira como a história é contada. Mark Watney é abandonado em Marte pelos parceiros da missão em que se encontrava, pois aqueles pensam que ele está morto, e vai-nos contando o seu dia-a-dia através de registos diários. O seu humor sarcástico é brilhante mas o que é demais enjoa e quando a coisa começa a perder a piada... eis que ganhamos novas perspectivas sobre a situação.

 

Como alguém disse no vídeo de discussão, é como se o autor soubesse exactamente o que o leitor está a pensar e, quando está prestes a perdê-lo, surge algo que volta a despertar a atenção e a manter-nos alerta. Isto fez com que partes do livro fossem lidas sofregamente para saber como é que se desenrascariam das várias situações que se vão sucedendo. Ou pelo menos isso aconteceria se Junho não tivesse sido (mais) um mês caótico, porque se é verdade que o livro é um autêntico pageturner, o facto é que dei por mim a aborrecer-me aquando das descrições da parte mais "Macguiveriana" (a descrição de "Macguiver em Marte" pela Telma é perfeita), e com a cabeça a viajar para bem mais longe que o planeta vermelho.

 

As personagens, tirando talvez o protagonista, são muito pouco desenvolvidas, sendo mesmo algo estereotipadas mas tal acaba por servir um propósito, todas têm uma função nesta narrativa, para além de fazerem Mark brilhar. No entanto, as relações acabam por ser bem conseguidas ainda que não sejam desenvolvidas de forma típica, digamos assim. Como fazê-lo se o protagonista está a muitos milhares de quilómetros da Terra? Mas Mark é realmente a estrela (ah! tinha de usar termos destes!). Percebo que haja quem tenha achado o seu humor artificial a partir de determinado ponto, como a Célia, mas tendo em conta o treino, o facto de terem escolhido o Mark pela sua personalidade, e o facto de que só temos um pequeno vislumbre daquilo que se passa com ele, sendo que o próprio diz que está a fazer aqueles registos na eventualidade de alguém os encontrar pelo que não devia querer dar parte de fraco, levam-me a admirar a sua força e estado de espírito. Garanto que se fosse eu, a história seria bem curta. 

 

Como disse, gostei do livro apesar dos problemas que fui encontrando. Problemas até que podem não ser apontados ao livro em si, pois deriva sobretudo de não me conseguir concentrar, como pretendia, na história. É um relato de luta pela sobrevivência num meio inóspito, coisa que penso que nunca tinha lido mesmo com histórias passando-se na Terra, com um personagem que, julgo, tornar-se-á memorável.

 

Podem ainda ler (porque não há links suficientes neste texto  ) as opiniões da Diana e da Slayra.

[Vi] "Jurassic World"

por Carla B., em 18.06.15

Retirado daqui.

 

Há vezes em que uma pessoa tem de confiar e seguir os seus instintos. Após ver um dos trailers do filme, em que toda a gente vibrava, incluindo o meu irmão, eu pensava "meh, acho que mais vale rever o primeiro". Pelo segundo trailer o meu irmão já me dava razão (YAY!)... Não é que o filme seja mau, ele entretém e eu até sou pessoa que fica facilmente entretida (gajos giros, explosões!), mas faltou-lhe algo que o primeiro tinha de muito especial.

 

Para começar, as personagens do primeiro eram mais convincentes e levavam a que uma pessoa ficasse interessada e se importasse realmente com o que lhes ia acontecer. Ora, é difícil torcer por uma pessoa que parece não ter nenhum interesse pelos seus sobrinhos. E não, a sua jornada, em que supostamente começa a preocupar-se, não foi nada credível parecendo que só se preocupa para não lhe virem a puxar as orelhas. Também não parece ter nenhuma paixão pelo que faz, chegando a parecer que lhe era aborrecido estar a administrar um parque com dinossauros! Os miúdos também não são assim tão interessantes como isso, para além de trazerem à baila temas que depois não são explorados, como o divórcio dos pais. Safa-se a personagem do Chris Pratt mas posso ser um pouco tendenciosa porque gosto de personagens que dizem piadas e além disso estamos a falar do sexy Chris Pratt.

 

Depois, a história... Até entendo a motivação para criar algo melhor, maior e mais arriscado, mas sou das que, como algumas personagens do filme, pensa que não há como melhorar os dinossauros porque... DINOSSAUROS! Só por si já são uma coisa de outro mundo! Mas vivo num mundo sem eles, se vivesse num mundo que os tem e cuja visita ao parque é tão banal como ir ao jardim zoológico (embora nem isso para mim seja banal), talvez tivesse uma ideia diferente, pelo que como disse até entendo. Ora, posto isto até nem tinha grandes problemas com o Indominus Rex mas tive, desde o trailer, com a "domesticação" dos raptors. Estes foram sempre, com o T-Rex, os maiores "vilões", digamos assim, os maiores antagonistas. Eu dei um salto no cinema, quando fui ver o primeiro filme ao IMAX em 3D, no momento em que um salta para tentar apanhar os protagonistas nas caixas de ventilação (?) e eu não sou muito de dar saltos. Eu sou aquela pessoa que, já tendo visto o "Parque Jurássico" umas dúzias de vezes, ainda acha que a cena da cozinha é das melhores cenas alguma vez feitas e em que fico agarrada ao assento mesmo sabendo como se desenrola! Domesticar raptors é contra natura! E não me falem no enredo de os quererem usar como armas militares. Como raio pensaram sequer nisso e não pensaram em usar, sei lá, leões ou outros animais selvagens antes? *revira olhinhos* Mas pronto, tive tempo para me habituar à ideia e durante o filme até fui engolindo essa história... até ao final.

 

Gostei quando raptors e Indominus confrontados se viram como parentes. A fé no filme cresceu e claro que sabia que o T-Rex ia aparecer (como não?), pelo que estava a ficar entusiasmada. A luta ia ser interessante! Mas de repente um dos raptors troca ali uma "piscadela de olho", um olhar cúmplice com o Owen (Chris Pratt) como que a dizer "vê! continuas a ser o meu alfa, agora dispara a coisa!" e foi-se a fé, começando o revirar de olhos. Mas ok, havia ali um laço, tudo bem, esforcei-me por engolir e desfrutar da luta titânica entre raptor, T-Rex e Indominus, quando de repente Mosassauro! E pronto, foi-se completamente a minha suspensão da descrença e desatei a rir que nem uma perdida no meio do cinema apinhado de gente. A sério, algo tomou conta de mim e só me ria com o ridículo de tudo aquilo. Parecia que estava a ver uma cena de Dino-Avengers! Conseguia imaginar alguém na produção do filme a dizer "3 dinossauros? Não, precisamos de mais carnívoros! Pterodáctilos! Precisamos da dino-força aérea! Como assim está tudo sob o efeito de tranquilizantes? Entre então a dino-frota marinha para ajudar a dino-força terrestre! Mas para a próxima que pelo menos um pterodáctilo fique por tranquilizar!!!" Sim, a minha mente faz filmes estranhos e com isto não conseguia parar de rir.

 

Como disse o filme entretém, houve quem gostasse, mas para mim faltou carisma às personagens, alguma credibilidade à história e faltou sobretudo a sensação de deslumbramento perante o encontro com um mundo perdido. Na verdade, não me pareceu haver amor por aquelas criaturas, não há fascínio, encanto como era notório com a personagem do Sam Neill, por exemplo. Há algum respeito, mas parece mais o respeito por mercadoria ou bem e não tanto respeito por um ser extinto que voltou a viver e que impõe respeito. "Ah e tal, passaram-se 20 anos, o parque está funcional, os dinossauros não são uma novidade como no primeiro", talvez... mas não me convenceu por completo. Apreciei como tentaram homenagear o primeiro filme - com a cena da t-shirt, a sequência de ADN animada, o icónico trecho da banda sonora (ainda hoje sinto arrepios quando oiço), o hall do primeiro parque, os carros, o gordo que tenta passar a perna aos protagonistas... - mas faltou-lhe magia e emoção pelo que só entreteve, não me moveu como aconteceu, e ainda hoje acontece, ao ver o "Parque Jurássico".

[Li] "A Relíquia" de Eça de Queirós

por Carla B., em 21.04.15

Ai Eça, como eu adoro o teu retrato da sociedade portuguesa dos finais do séc. XIX e como parece ela tão semelhante nos inícios do séc. XXI.

 

Podia vir para aqui falar de como as aulas de Português quase mataram o fascínio que tenho vindo a desenvolver pelo Eça quase à sua nascença, mas penso que isso é tema para outros debaterem. Não, prefiro vir antes falar de como mais de 100 anos depois de ele ter vivido, a sociedade é ainda tão igual aquela que conheceu.

 

Em A Relíquia somos apresentados a Teodorico Raposo, o "Raposão", que ainda em criança é levado para casa de uma muito beata "Titi". Mas lá porque a casa em que cresce é beata, não quer dizer que ele o seja, correndo atrás de tudo quanto é rabo de saias sempre que se apanha longe dos olhares da Titi. Mas tem que ser bem longe, que dentro de casa sob aquela vista implacável ele é uma coisa bem diferente, penando-se e martirizando-se, batendo no peito e pedindo perdão por todos aqueles pecados que (não) fez, só mesmo para inglês... perdão, para Titi ver, porque até lhe dava jeito ficar com a herança dela.

 

Enfim, Teodorico para se tornar mais santo que os santos, aos olhos da Titi, decide viajar até à terra que dá santidade. Mas o hábito de santo não lhe fica bem e aproveita o facto de se encontrar longe dos olhos daquela para se refazer-se da outra que o deixou, cedendo por isso a todas as tentações que encontra no caminho. E foi disto que gostei. Não do facto de trabalhar as mulheres como lixo ou de julgar as acções delas como sendo piores que as suas, quando elas são exactamente como ele, e isso, mais que as acções dele, levaram-me a não gostar da personagem, mas de a sua personalidade pouco ou nada mudar. Mesmo depois de ter o sonho em que presencia a Paixão de Cristo, não deixa de ser o hipócrita que era antes. Sim, há ali uns momentos em que parece querer mudar mas isso rapidamente lhe passa e volta aos antigo hábitos. Só quando tudo lhe corre mal, após curiosamente tentar deixar de ser o hipócrita que é, é que avalia a própria consciência e reconhece os seus erros, efectuando-se uma ligeira mudança nele. E digo ligeira porque perante a hipocrisia de outros, arrepende-se de não ter continuado a mentir perante "a relíquia".

 

A hipocrisia reina neste livro, propiciando alguns momentos bastante engraçados, e dá um retrato muito bem conseguido dos vários estratos da sociedade portuguesa à época, mostrando-nos a sua beatice e o seu cinismo, algo que ainda hoje se encontra em alguns meios.

[Li] "Nossa Senhora de Paris" de Victor Hugo

por Carla B., em 07.03.15

Ah, pegar em clássicos... é sempre algo que mete algum respeito, mesmo que já tenhamos lido o que é considerado a obra maior do seu autor. Mas mergulhar num novo título, para nós, é sempre algo que merece pelo menos alguma reflexão, afinal vamos dar um salto no tempo, ver como as coisas eram há uns séculos atrás...

 

Nesta obra de 1831 até acabamos por ir mais longe e visitamos a Paris de 1482, que hoje é praticamente irreconhecível, no entanto, o autor leva-nos pela mão numa visita guiada e mostra-nos aquela cidade, com os seus impressionantes edifícios como Notre Dame. A sua descrição é belíssima e alguns dos seus comentários chegam a ser engraçados. Perante tudo isto, tive apenas alguma pena por não ter lido o livro assim que voltei de visitar aquela cidade. Era o meu plano em 2011, mas outros livros meteram-se no caminho. Claro que, como disse, a cidade retratada seria irreconhecível mas de certa forma talvez fosse mais fácil situar onde se passa alguma da acção, embora a descrição seja o suficiente para, se não trazer à memória a cidade visitada, pelo menos ter a sensação de que se passeia por aquela que ficou perdida no tempo.

 

A história desenrola-se lentamente mas assim que ganha ritmo temos a noção de que o fado e o destino se tornam inescapáveis. Não há como evitar o que se vai suceder e simplesmente não dá para desviar o olhar ou a atenção da página que viramos com a esperança de que não acabe como tememos.

 

As personagens, como a cidade e a história, também cativam. É interessante ver como cada uma ama de forma completamente diferente de outra e como o amor consome cada um. Gudule ama o que há muito perdeu; Esmeralda enamora-se por alguém bonito mas supérfluo; Febo usa a confusão que existe entre amor e desejo em seu proveito; Frollo ama de forma doentia; Quasimodo simplesmente ama. De certa forma traz a lume o mesmo tema que O Fantasma da Ópera e, como aquele, fá-lo de forma excelente. Também o seu final acaba por ser algo semelhante, de partir o coração e digno para a história.

 

Parece que Paris tem bastantes personagens desfiguradas, e não só em termos de beleza exterior, a assombrar edifícios e perdidamente apaixonados por raparigas bonitas, ainda que não correspondidos. Por mim, não me importa que assim seja se continuarem a suscitar livros como estes...

[Vi] "The Disappearance of Eleanor Rigby: Them"

por Carla B., em 04.03.15

Tirado daqui

 

Ultimamente tenho andado com interesse em filmes diferentes, que sejam gravados ao longo de 12 anos por exemplo, ou que dêem que pensar (mais não seja pela sua estranheza), como o "Under the Skin", por isso quando vi que este filme teria diferentes partes, ficou debaixo de olho.

 

Esta experiência, chamemos-lhe assim, tenta apresentar dois pontos de vista de uma mesma relação. Como não sabia porque ordem ver, se começar pela versão dela ou dele, acabei por optar pela visão de ambos. Não me arrependo já que fiquei com a ideia geral do que se passa entre eles e agora penso que será interessante debruçar-me sobre o ponto de vista de cada um.

 

A história parece começar a meio, e logo com uma espécie de murro no estômago, mas aos poucos vamos ficando a conhecer as personagens e as suas histórias, como chegaram a uma situação de ruptura e como tentam trabalhar numa relação que, de qualquer outro modo, parecia perfeita.

 

Um dos pontos fortes é sem dúvida a química entre os personagens. Talvez esteja a ser parcial, porque acho que o James McAvoy é perfeito brilhante em tudo o que faz e a Jessica Chastain, cujo trabalho não conheço tão bem, parece fazer também parte do grupo "actores que não conseguem errar". No entanto, o que mais gostei foi de como as duas personagens funcionam bem separadas. É óbvio que se amavam e que, apesar daquilo porque passaram, ainda sentem algo pelo outro, mas também são seres que funcionam fora da relação, algo que muita ficção esquece. Tal como esquece o trabalho que dá manter uma relação, e que por vezes há discussões, pelo que este filme fez-me lembrar em certa medida a trilogia "Before", o que é sempre bom. Assim, focando em indíviduos que fazem parte de um casal (que supostamente devia funcionar como uma unidade) acompanhamos a maneira com que cada um processa o mesmo acontecimento e lida com o que tudo isso suscita. É interessante ver como num momento em que deviam unir-se, o facto de terem personalidades diferentes e diferentes modos de lidar com a perda, acabam por se isolar e afastar-se um do outro.

 

O final pareceu-me um pouco deixado em aberto, espero que num dos outros seja algo mais concreto, mas mesmo que tal não suceda não vejo qualquer mal, pois tal como em "Before Sunrise" aposto que há 3 categorias de pessoas e de como encaram o final - aqueles que acreditam que ficam juntos, os que não o acreditam e aqueles que gostariam que tal acontecesse mas que duvidam. Mas qualquer que seja o final, a mensagem parece ser simples: a conversação é a melhor maneira para trabalhar uma relação, no entanto, é complicado quando parece que não há palavras para descrever o que se sente, ou a profundidade do que se sente, e os outros não conseguem ler mentes. O que fazer nesse caso? É isto que o filme explora e é por isso que o recomendo e que facilmente se transformou num favorito.