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Coisas que...

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21
Abr15

[Li] "A Relíquia" de Eça de Queirós

Carla B.

Ai Eça, como eu adoro o teu retrato da sociedade portuguesa dos finais do séc. XIX e como parece ela tão semelhante nos inícios do séc. XXI.

 

Podia vir para aqui falar de como as aulas de Português quase mataram o fascínio que tenho vindo a desenvolver pelo Eça quase à sua nascença, mas penso que isso é tema para outros debaterem. Não, prefiro vir antes falar de como mais de 100 anos depois de ele ter vivido, a sociedade é ainda tão igual aquela que conheceu.

 

Em A Relíquia somos apresentados a Teodorico Raposo, o "Raposão", que ainda em criança é levado para casa de uma muito beata "Titi". Mas lá porque a casa em que cresce é beata, não quer dizer que ele o seja, correndo atrás de tudo quanto é rabo de saias sempre que se apanha longe dos olhares da Titi. Mas tem que ser bem longe, que dentro de casa sob aquela vista implacável ele é uma coisa bem diferente, penando-se e martirizando-se, batendo no peito e pedindo perdão por todos aqueles pecados que (não) fez, só mesmo para inglês... perdão, para Titi ver, porque até lhe dava jeito ficar com a herança dela.

 

Enfim, Teodorico para se tornar mais santo que os santos, aos olhos da Titi, decide viajar até à terra que dá santidade. Mas o hábito de santo não lhe fica bem e aproveita o facto de se encontrar longe dos olhos daquela para se refazer-se da outra que o deixou, cedendo por isso a todas as tentações que encontra no caminho. E foi disto que gostei. Não do facto de trabalhar as mulheres como lixo ou de julgar as acções delas como sendo piores que as suas, quando elas são exactamente como ele, e isso, mais que as acções dele, levaram-me a não gostar da personagem, mas de a sua personalidade pouco ou nada mudar. Mesmo depois de ter o sonho em que presencia a Paixão de Cristo, não deixa de ser o hipócrita que era antes. Sim, há ali uns momentos em que parece querer mudar mas isso rapidamente lhe passa e volta aos antigo hábitos. Só quando tudo lhe corre mal, após curiosamente tentar deixar de ser o hipócrita que é, é que avalia a própria consciência e reconhece os seus erros, efectuando-se uma ligeira mudança nele. E digo ligeira porque perante a hipocrisia de outros, arrepende-se de não ter continuado a mentir perante "a relíquia".

 

A hipocrisia reina neste livro, propiciando alguns momentos bastante engraçados, e dá um retrato muito bem conseguido dos vários estratos da sociedade portuguesa à época, mostrando-nos a sua beatice e o seu cinismo, algo que ainda hoje se encontra em alguns meios.

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